O CORPO 360° é uma metodologia em desenvolvimento criada por um homem trans. Isso não é detalhe — é o ponto de partida.
A técnica aqui não funciona como punição. O esforço é real, mas é aproveitado, não desperdiçado. O corpo não luta contra a gravidade: negocia com ela. Não domina o chão: entra em relação com ele. Estar no chão ou de pé são expressões da mesma unidade, não há hierarquia entre os níveis.
A criação começa de fora. Do espaço que não é vazio. Do outro que não é obstáculo. Do objeto que não é acessório. Do jogo que não julga. Antes de olhar para dentro, o CORPO 360° propõe olhar para fora e descobrir que a consciência de si nasce do contato com o que não é você.
A instabilidade não é corrigida.
É HABITADA.
O parceiro não é suporte.
É MATÉRIA VIVA.
O espaço não é vazio. É SUPERFÍCIE de CONTATO.
Essa inversão não é só técnica. É filosófica. E muda tudo.
CORPO 360° é um workshop para artistas do corpo que explora o movimento como estado permanente de relação. Através de floorwork, improvisação, partnering e ativação espacial, o corpo aprende que a instabilidade não é um problema a resolver — é o lugar onde tudo acontece. Quando tudo é matéria, quando tudo é superfície de contato, o chão e o espaço se tornam apenas outro corpo em relação.
Três objetos circulares. Nenhum deles é neutro.
Cria um laço de atenção no espaço. Ela prova que existe relação mesmo sem toque — quem lança, quem recebe, quem observa: todos já estão em contato antes de qualquer movimento. Ela é pequena, mas o campo de tensão que ela abre é enorme.
Chega com outro peso, outra inércia, outro tempo. O corpo precisa se reorganizar inteiro para recebê-la. Não é um ajuste técnico — é uma negociação de presença. Ela lembra que o mundo exterior tem massa, e que dançar é também aprender a responder ao que pesa.
Envolve. Ele transforma o ar em superfície, o espaço invisível em matéria tangível. Dentro dele, ao redor dele, em oposição a ele — o corpo descobre que a resistência que sempre esteve ali pode ser habitada, não evitada.
Os três são circulares porque a esfera não tem hierarquia de superfícies. Ela não tem frente nem costas. Ela exige atenção em todas as direções — e é exatamente isso que o CORPO 360° propõe para o corpo humano.
O objeto entra no espaço como um outro corpo. Ele tem peso, forma e presença. Ele não pede que você pense — ele exige que você responda. E ao exigir resposta, ele ativa o que nenhuma instrução verbal consegue ativar sozinha: a consciência de si que nasce do contato com o que não é você.
A criação não começa por dentro. Começa no momento em que o objeto chega.
O workshop CORPO 360° nasce da trajetória do artista da dança Heleno Carneiro. Desde a infância, a prática da capoeira e as primeiras aulas de dança contemporânea no projeto sociocultural Quik Cidadania abriram caminhos para perceber o corpo como matéria em movimento. A formação em Teatro acrescentou à pesquisa as dimensões da expressividade e da presença performativa. O contato com o Gyrotonic aprofundou a compreensão de fluxos, espirais e alinhamentos internos. A passagem pelo Ballet Jovem Minas Gerais — onde também se formou em Ballet Clássico — trouxe versatilidade técnica.
O estudo de floorwork e da técnica Piso Movil na Colômbia, com Luisa Camacho, Xezar Garcia, Yenser Pinilla e Ingrid Londoño, expandiu a percepção do corpo e do espaço como matérias móveis. Residências em Técnicas MMS, Técnica Alexander, Contato Improvisação e Fight Monkey reforçaram a escuta ativa e os fundamentos técnicos. Na Europa, experiências com Flying Low e técnicas de chão com Helder Seabra e Amarnah Ufuoma Cleopatra, vivências com Botis Seva e Far From The Norm, e Marcos Morau na GöteborgsOperans Danskompani, além de passagens por companhias como Tanz Kassel, Theater Heidelberg e Lenka Vagnarova & Company aprofundaram a compreensão de fisicalidades diversas. Residências em Viewpoints e Método Suzuki, com Luciana Brandão e Bya Braga, abriram olhares sobre composição espacial. O trabalho com partnering — em residências com Patricia Kuypers, Franck Beaubois e Lali Ayguadé — consolidou a percepção da relação física entre corpos.
Todas essas experiências se entrelaçam no CORPO 360°.
Cia de Dança do Palácio das Artes
Universidade Federal de Minas Gerais Curso de Dança
Teatro Universitário da UFMG
Corpo Escola de Dança Grupo Corpo
Fragmento Companhia de Dança
Intrépida Trupe Rio de Janeiro
Estúdio Oito Nova Dança
Os workshops na Intrépida Trupe e no Estúdio Oito Nova Dança foram ministrados em parceria com o bailarino Augusto Trainotti.
Em todas as vezes que experimentei dançar no chão, não gostei de nenhuma. Dessa vez, eu amei.
Me encontrei brincando. E o curioso porque eu cheguei muito preocupada com uma coisa lá de fora. E aconteceu assim, de um jeito mais natural possível.
A sua aula é tipo uma poética mesmo da relação. Você estabelece essa poética desde o começo e vai criando uma constância pra que ela se mantenha até o fim.
Você não estava só fazendo ali — você mostrava, você participava do processo com a gente. Quando você fazia, a gente queria fazer com você. Não porque você estava pedindo. Porque a gente queria fazer junto.
Eu cheguei cansada. E aí, em toda a dinâmica, em toda a proposta, me vi mais viva. Tinha uma palavra: vivacidade.
Eu reparei isso: como que é dançar com o corpo preocupado? Como aproveitar isso?
Cresci mais um pouquinho com esse artista. Sua grandeza navega pela leveza dos movimentos e a generosidade em compartilhar seu processo de criação, ocupação e transformação do corpo em cena. O que fazer com o corpo que não está de acordo com as regras impostas pela sociedade? Me coloco nesse lugar para ocupar e transformar o território, com meu corpo negro e vivências. Heleno, em algumas horas, demonstra que é possível construir um caminho que leva a essa transformação corporal e é libertador entender que não preciso me encaixar em padrões pré estabelecidos no processo criativo. Meu corpo, minha morada! Sou muito grata. Heleno, aprendi mais um pouco contigo.